Como medir o VTI subvalvar aórtico e calcular DC, IC e ΔVTI
Janela do VTIApical 5 câmaras
Diâmetro do VSVENo ânulo (≤ 2 mm)
ΔVTI no PLR≥ 10% responsivo
Conceito: o VTI (velocity-time integral) é a área sob a curva do Doppler pulsado na via de saída do ventrículo esquerdo. Na prática, é a distância em centímetros que a coluna de sangue percorre em uma sístole. Multiplique pela área da via de saída e você tem o volume sistólico; multiplique pela frequência e tem o débito cardíaco. É por isso que o VTI encerra todo teste de responsividade a volume: ele mostra o que o volume fez com o débito, não a chance de fazer.
01
Por que medir o VTI, e não a pressão
Todo teste dinâmico (PLR, mini-bolus, oclusão expiratória) precisa de alguma forma de ler o débito cardíaco. A pressão arterial não serve: ela depende da complacência das artérias e da amplificação da onda de pulso, e as duas mudam durante a própria manobra. Monnet e Teboul colocam isso entre as cinco regras do PLR: o teste é menos confiável quando julgado pela pressão de pulso do que pelo débito.
O que o VTI éA velocidade do fluxo somada ao longo da sístole, em cm. Em inglês aparece como stroke distance, a distância que o sangue avança em cada batimento. Não precisa de calibração, cateter ou termodiluição.
Por que ele responde rápidoAcompanha o volume sistólico batimento a batimento. Como o efeito do PLR pode acabar em 1 minuto, só serve um método que mede na hora. O eco pega a mudança; medida tardia não.
Monnet X, Teboul JL. Passive leg raising: five rules, not a drop of fluid! Crit Care. 2015;19:18.
O VTI é a área sob a curva de um batimento
Valores de referência: VTI normal 20 ± 3 cm (17–23 cm). Blanco P. Rationale for using the velocity-time integral and the minute distance for assessing the stroke volume and cardiac output in point-of-care settings. Ultrasound J. 2020;12:21.
02
Aquisição do VTI — Doppler pulsado no VSVE
A medida do VTI é a mesma em qualquer teste funcional. O que muda é a manobra que você faz entre as duas medidas.
1Pegue a janela apical 5 câmaras. Partindo da apical 4 câmaras, inclina o transdutor um pouco para a frente, na direção do esterno, até a raiz da aorta aparecer no meio da imagem, entre as câmaras. Se essa janela não abrir, a apical 3 câmaras também serve.
2Alinhe o feixe com o fluxo. O Doppler só lê a velocidade na direção do feixe, então ele precisa ficar o mais paralelo possível ao jato que sai do ventrículo. Todo desalinhamento puxa a velocidade para baixo, nunca para cima. Procure o traçado mais alto mexendo na janela, e não corrigindo o ângulo no aparelho.
3Posicione a amostra logo antes da valva. Deixe a amostra do Doppler pulsado em 3–5 mm e coloque na via de saída, pouco antes da valva aórtica. Para acertar o ponto: comece em cima da valva e recue na direção da ponta do coração até os cliques de abertura e fechamento desaparecerem. Ali o fluxo corre reto e a curva sai limpa.
4Contorne a curva. Passe o traçado pela borda da curva sistólica, acompanhando a parte mais escura e densa. O aparelho devolve o VTI em cm. Se a curva estiver borrada ou com a borda mal definida, a amostra está fora do fluxo reto: reposicione antes de aceitar o número.
5Tire a média de vários batimentos. Com ritmo regular, média de 3 ou mais ciclos. Em fibrilação atrial ou extrassístoles, o volume sistólico muda a cada batimento, então use 5 ciclos ou mais e compare sempre trechos parecidos. Sem isso, você confunde variação do ritmo com resposta ao volume.
A posição da amostra decide a qualidade da curva
Amostra de 3–5 mm posicionada cerca de 1 cm da valva aórtica; recuar a partir do plano valvar até desaparecerem os cliques. Blanco P. Ultrasound J. 2020;12:21. · Guzzetti E, et al. J Am Soc Echocardiogr. 2020;33:953-63.
O que mais estraga a comparação: no teste funcional só interessa a diferença entre as duas medidas. Se o transdutor mudar de lugar, de ângulo ou de profundidade entre a medida de antes e a de depois, o ΔVTI vai refletir a sua mão, não o paciente. Apoiar a mão e manter exatamente o mesmo plano é parte da técnica, não excesso de zelo.
Guzzetti E, Capoulade R, Tastet L, et al. Estimation of Stroke Volume and Aortic Valve Area in Patients with Aortic Stenosis: A Comparison of Echocardiography versus Cardiovascular Magnetic Resonance. J Am Soc Echocardiogr. 2020;33:953-63.
03
ΔVTI — o cálculo dos testes funcionais
O ΔVTI é só a variação percentual entre a medida de antes e a de depois da manobra. O corte muda conforme o teste.
ΔVTI=VTIpós − VTIbasalVTIbasal×100
Exemplo: VTI basal 16 cm → 18,5 cm após PLR. ΔVTI = (18,5 − 16) / 16 × 100 = 15,6% → responsivo.
Teste
Manobra
Corte do ΔVTI
Desempenho
PLR
Cabeceira a 45° → tronco na horizontal e pernas a 45°, mexendo na cama; medir dentro de 1 min
≥ 10%
S 86% · E 92% (débito cardíaco)
Mini-bolus
100 mL de cristaloide em 1 min
≈ 9%
S 92% · E 89%
Oclusão expiratória
Pausa do ventilador ao fim da expiração, 12–15 s
≈ 4–9%
S 89% · E 95% (sedado, sem esforço)
Cherpanath TG, Hirsch A, Geerts BF, et al. Predicting Fluid Responsiveness by Passive Leg Raising: A Systematic Review and Meta-Analysis of 23 Clinical Trials. Crit Care Med. 2016;44:981-91. · Georges D, de Courson H, Lanchon R, et al. End-expiratory occlusion maneuver to predict fluid responsiveness in the intensive care unit: an echocardiographic study. Crit Care. 2018;22:32. · Selvam V, Shende D, Anand RK, Kashyap L, Ray BR. End-expiratory Occlusion Test and Mini-fluid Challenge Test for Predicting Fluid Responsiveness in Acute Circulatory Failure. J Emerg Trauma Shock. 2023;16:109-15.
Os cortes são quase do tamanho do erro do método. Um ΔVTI de 4 a 10% está na mesma ordem da variação da própria medida. É por isso que se exige média de batimentos, janela idêntica e, nas cinco regras do PLR, voltar o paciente à posição inicial e conferir que o VTI voltou ao valor de antes. Sem essa volta, uma oscilação espontânea passa por teste positivo.
04
Do VTI ao débito cardíaco
Para decidir volume, o ΔVTI basta: a área da via de saída não muda no mesmo paciente e se cancela na divisão. O valor de débito em L/min só é necessário quando você quer o número mesmo (DC, IC, DO₂), e aí entra o diâmetro.
Volume sistólico e débito
VS=VTI×AVSVE
AVSVE=π×(d/2)²
DC=VS×FC
VTI e d em cm dão VS em mL e DC em mL/min (divida por 1000 para L/min).
O diâmetro do VSVE — onde o erro entra ao quadrado
O diâmetro é a maior fonte de erro do débito por eco, porque entra elevado ao quadrado no cálculo da área. Um deslize pequeno na medida vira um erro grande no débito.
Erro no diâmetro
Erro resultante no volume sistólico
5% (20 → 21 mm)
10% (63 → 69 mL)
10% (20 → 22 mm)
21% (63 → 76 mL)
O nível da medida muda a área ao quadrado
Guzzetti E, Capoulade R, Tastet L, et al. Estimation of Stroke Volume and Aortic Valve Area in Patients with Aortic Stenosis: A Comparison of Echocardiography versus Cardiovascular Magnetic Resonance. J Am Soc Echocardiogr. 2020;33:953-63.
Janela paraesternal longitudinal, com zoom na raiz da aorta
Congelar no meio da sístole, porque a via de saída não tem o mesmo diâmetro do início ao fim
Medir de borda interna a borda interna, sem incluir a parede
No ânulo, onde as cúspides se articulam, ou no máximo 2 mm abaixo dele
Não meça 5 a 10 mm abaixo do ânulo. Essa era a recomendação antiga, pela lógica de medir o diâmetro no mesmo ponto onde fica a amostra do Doppler. A comparação direta com ressonância magnética mostrou que ali a via de saída costuma ser oval, e não redonda: a medida de frente para trás, tratada como se fosse um círculo, subestima a área. Medindo 5 e 10 mm abaixo, o volume sistólico caiu até 15,9 ± 17,3 mL, e o acerto em classificar baixo fluxo desabou de 86% (no ânulo) e 82% (2 mm) para 69% e 61%.
Guzzetti E, Capoulade R, Tastet L, et al. Estimation of Stroke Volume and Aortic Valve Area in Patients with Aortic Stenosis: A Comparison of Echocardiography versus Cardiovascular Magnetic Resonance. J Am Soc Echocardiogr. 2020;33:953-63.
Boa notícia para o plantão: como o diâmetro não muda entre as duas medidas do teste, ele se cancela no ΔVTI. Um diâmetro torto estraga o número do débito, mas não a resposta à pergunta que interessa, “o débito subiu?”. Na hora de decidir se dá volume ou não, o ΔVTI é mais confiável que o DC calculado.
06
Armadilhas
Erros que mudam a conduta
Fazer PLR sem medir VTI → vira só “levantar a perna”: julgar pela pressão acerta pouco e é o que as cinco regras proíbem
Erguer as pernas na mão em vez de mexer na cama → dor e descarga adrenérgica; a taquicardia entrega o teste contaminado
Começar com o paciente deitado plano → perde o sangue que vem da barriga quando o tronco desce
Medir mais de 1 min depois da manobra → o efeito do PLR já passou, e o teste dá falso negativo
Mexer o transdutor entre as duas medidas → o ΔVTI passa a medir a sua mão, não o paciente
Aceitar curva borrada ou feixe mal alinhado → puxa a velocidade para baixo e gera mais ruído que o próprio corte do teste
Medir um único batimento em fibrilação atrial → só a variação do ritmo já produz ΔVTI de dois dígitos
Usar oclusão expiratória em quem respira sozinho → o teste só vale com sedação e sem esforço; nesse caso prefira PLR
Monnet X, Teboul JL. Passive leg raising: five rules, not a drop of fluid! Crit Care. 2015;19:18.
Sequência de plantão
Pegar a apical 5 câmaras · amostra do Doppler recuando até sumirem os cliques · contornar 3 ciclos e anotar o VTI · descer o tronco e subir as pernas pela cama · medir de novo em até 1 min, na mesma janela → ΔVTI de 10% ou mais indica responsivo · voltar à posição inicial e conferir que o VTI voltou. Se quiser o débito em L/min, medir o diâmetro no ânulo, no meio da sístole, de borda interna a borda interna.