Hemodinâmica · Fluxo de decisão

Fluxograma Integrado

Do choque à conduta — padrão, gasometria, POCUS, drogas · SSC 2026

·Suspeita de choque
PAM < 65 mmHg · lactato elevado · enchimento capilar > 3 s · oligúria · alteração de consciência · pele moteada. Iniciar o protocolo em paralelo a história e exame focado.
1Identificar o padrão hemodinâmico
POCUS rápido + clínica direcionada. O padrão guia a primeira intervenção antes mesmo da gasometria pareada estar pronta.
Hipovolêmico
DC ↓ · RVS ↑ · PVC ↓
VCI colapsável · pele fria · sangramento/perdas
Volume é a 1ª intervenção. Vasopressor é ponte enquanto repõe.
Distributivo
DC ↑ · RVS ↓ · PVC variável
Pele quente · PP alargada · sepse, anafilaxia, neurogênico
Vasopressor precoce (Nora). Volume guiado por dinâmicos (PLR/VPP).
Cardiogênico
DC ↓ · RVS ↑ · PVC ↑
FE reduzida · linhas B difusas · IAM/miocardite/arritmia
Nora se PAM < 65, dobutamina se hipoperfusão persistente. Não dar volume cego.
Obstrutivo
DC ↓ · RVS ↑ · PVC ↑
VD dilatado · derrame pericárdico · ausência de sliding
Tratar a causa: drenar tamponamento · trombolisar TEP · descomprimir pneumotórax.
2Gasometria pareada — coletar e calcular
Arterial + venosa central simultaneamente (CVC, não periférica). Calcular dois parâmetros que se complementam: SvcO₂ (oferta vs. consumo) e Δ pCO₂ = pCO₂ venosa − pCO₂ arterial (fluxo tecidual).
3Interpretar pelos quadrantes SvcO₂ × Δ pCO₂
Q1 · Adequado
SvcO₂ ≥ 70% · Δ pCO₂ < 6
Sem hipoperfusão global
Manter monitoramento. Lactato seriado, PAM, diurese, enchimento capilar. Reavaliar em 2–4 h.
Q2 · Oferta
SvcO₂ < 70% · Δ pCO₂ < 6
Problema na oferta (DO₂)
Avaliar Hb, SaO₂ e DC. Transfundir se Hb < 7. Otimizar ventilação. Avaliar inotrópico.
Q3 · Falsa segurança
SvcO₂ ≥ 70% · Δ pCO₂ ≥ 6
Fluxo ruim, saturação normal
Não confiar na SvcO₂. Considerar shunting microcirculatório, hipóxia citopática, foco infeccioso não controlado.
Q4 · Baixo débito
SvcO₂ < 70% · Δ pCO₂ ≥ 6
Choque confirmado
Identificar mecanismo. Eco point-of-care urgente. Volume, vasopressor ou inotrópico conforme padrão.
4Avaliar a oferta de O₂ (DO₂) — onde intervir
Especialmente útil em Q2 e Q4. DO₂ = DC × CaO₂ × 10. CaO₂ = (Hb × 1,34 × SaO₂) + (pO₂ × 0,003). Hemoglobina domina o transporte (~98%).
Hb baixa
Transfusão de hemácias
Alvo Hb ≥ 7–8 g/dL em sepse · ≥ 8–10 em cardiopata.
SaO₂ baixa
O₂ suplementar · VNI · IOT
Alvo SaO₂ ≥ 94%. Não cair em hiperóxia.
DC baixo
Volume · vasopressor · inotrópico
IC ≥ 2,2 L/min/m². Próximo passo decide qual.
5POCUS VCI + dinâmicos — decidir sobre volume
Use a fórmula correta para o modo ventilatório. Em arritmia, esforço respiratório ou janela ruim, prefira PLR com VTI ou VPP (intubado).
VCI colapsável
< 1,5 cm · cIVC > 50% · dIVC > 18%
Reposição volêmica
Cristaloide balanceado (Ringer lactato preferencial) 250–500 mL. Reavaliar após cada bolus.
Zona cinzenta
VCI 1,5–2,1 cm · cIVC 20–50%
PLR + medir VTI
Aumento > 12–15% no VTI subvalvar → administrar volume. Sem resposta → vasopressor.
VCI dilatada
> 2,1 cm · colapso < 20%
Não administrar volume
Eco urgente. Avaliar VD, TEP, tamponamento. Vasopressor e/ou inotrópico.
6Iniciar e escalonar drogas vasoativas
Alvo: PAM ≥ 65 mmHg (60–65 se ≥ 65 anos). SSC 2026: vasopressor pode ser iniciado em acesso periférico de bom calibre enquanto se obtém central.
1ª droga
Noradrenalina 0,01–0,05 μg/kg/min
Titular a cada 2–5 min. Acima de 0,25–0,5 μg/kg/min → considerar 2ª droga.
2ª droga
Vasopressina 0,03 U/min (fixa)
Não titular. Permite reduzir Nora. Considerar hidrocortisona 200 mg/dia se vasopressor crescente > 4 h.
Inotrópico se DC baixo
Dobutamina 2,5–5 μg/kg/min
Adicionar se hipoperfusão persiste apesar de PAM em alvo (FE reduzida no eco).
Doses, diluições e escalonamento completo na aba Drogas
7Reavaliação seriada após cada intervenção
Conferir as 6 metas. Se atingidas, manter e iniciar desmame de vasopressor. Se não, reiniciar do passo 2.
Δ pCO₂ < 6 mmHg
SvcO₂ ≥ 70%
Lactato em queda
PAM em alvo
Enchimento capilar < 3 s
Diurese ≥ 0,5 mL/kg/h
Metas atingidas
Ressuscitação completa
Manter monitoramento. Iniciar desmame de vasopressor (Nora primeiro, vasopressina por último). Reduzir 0,02–0,05 μg/kg/min a cada 15–30 min se PAM estável.
Metas não atingidas
Reiniciar avaliação
Repetir gasometria pareada. POCUS, eco se necessário. Reconsiderar diagnóstico (foco infeccioso? complicação?). Escalonar drogas.
↻ Em metas não atingidas, retorne ao passo 2 (gasometria + quadrantes) com nova interpretação
!Armadilhas e limitações
SvcO₂ elevada
Sepse hiperdinâmica · hipóxia citopática · coleta periférica · cateter mal posicionado · sedação profunda.
POCUS VCI
Taquipneia → falso positivo · TEP/DPOC → VCI dilatada · PEEP alto distorce · arritmias dificultam · janela ruim → usar PLR.
SSC 2026 — destaques
Parâmetros dinâmicos (PLR, VPP) > estáticos · vasopressor periférico precoce · PAM 60–65 se ≥ 65 anos · cristaloide balanceado.
Regra de ouro
Padrão hemodinâmico diz que tipo de choque · gasometria pareada diz se há e quanto de hipoperfusão · DO₂ diz onde intervir na oferta · POCUS VCI + PLR diz se responde a volume · drogas conforme padrão e escalonamento