Hemodinâmica · Farmacologia
Vasopressores e Inotrópicos
Doses, diluições e algoritmo de escalonamento — 1ª escolha por choque, titulação e armadilhas de plantão.
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Aviso clínicoDoses e diluições são referências práticas — confirme no protocolo do seu serviço, na bula e com o farmacêutico clínico antes de prescrever. Diluições padrão variam entre instituições. Pesos extremos, gestação, pediatria e insuficiência hepática/renal exigem ajuste individual.
1ª escolha por tipo de choque
| Choque | 1ª linha | 2ª linha / adicionar se refratário | Alvo |
|---|---|---|---|
| Séptico | Noradrenalina | Vasopressina (Nora > 0,25–0,5 μg/kg/min) → Adrenalina → Hidrocortisona se vasopressor crescente | PAM ≥ 65 (60–65 se ≥ 65 anos) |
| Cardiogênico | Noradrenalina (PAM < 65) ± Dobutamina | Milrinona · Levosimendana · suporte mecânico (BIA, ECMO) | PAM ≥ 65 · IC ≥ 2,2 |
| Hipovolêmico | Volume — vasopressor é ponte | Noradrenalina enquanto repõe | Controle da causa |
| Obstrutivo | Noradrenalina + tratar causa (drenar tamponamento, trombolisar TEP, descomprimir pneumotórax) | Adrenalina se parada iminente | Reverter a obstrução |
| Anafilático | Adrenalina IM 0,3–0,5 mg (lateral da coxa) — repetir a cada 5–15 min | Adrenalina IV em BIC se refratário · Volume · Anti-H1/H2 · corticoide | Reverter broncoespasmo e hipotensão |
| Neurogênico | Noradrenalina (vaso + crono) | Fenilefrina se taquicardia · Atropina se bradicardia associada | PAM 85–90 (TRM agudo) |
O que o SSC 2026 sugere não usar como primeira escolha
| Agente | Posição 2026 | Força |
|---|---|---|
| Dopamina, adrenalina ou selepressina | Preferir noradrenalina como agente inicial no choque séptico | Forte |
| Vasopressina ou angiotensina II | Preferir noradrenalina. Vasopressina entra como associação em dose escalonada de noradrenalina, não como primeira escolha | Condicional |
| Terlipressina | Sugerido contra o uso no choque séptico | Condicional |
| Betabloqueador como tratamento do choque | Sugerido contra | Condicional |
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Leitura da força. Forte = aplicável à maioria dos pacientes. Condicional = evidência fraca ou balanço incerto; individualizar. Nenhuma dessas posições impede o uso em cenário específico com justificativa clínica — elas dizem qual é o padrão esperado.
Noradrenalina (norepinefrina)
α₁ >> β₁1ª linha em choque sépticoSSC 2026: pode iniciar em acesso periférico
| Dose inicial | Titulação | Dose máxima usual |
|---|---|---|
| 0,01–0,05 μg/kg/min | Aumentar 0,02–0,05 μg/kg/min a cada 2–5 min até alvo de PAM | 1–2 μg/kg/min (acima disso → adicionar 2ª droga) |
Diluição padrão: 16 mg (4 amp de 4 mg) em 250 mL SG 5% = 64 μg/mL
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Cálculo prático (paciente 70 kg, dose 0,1 μg/kg/min, diluição 64 μg/mL)Vazão = (0,1 × 70 × 60) / 64 = 6,6 mL/h. Lembrete: 1 μg/kg/min em 70 kg ≈ 65 mL/h nessa diluição.
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Efeitos adversosVasoconstrição esplâncnica e periférica (isquemia digital), arritmias (menos que adrenalina/dopamina), bradicardia reflexa em hipertensos. Extravasamento → necrose: tratar com fentolamina SC.
Vasopressina
Receptor V1Adicionar à Nora, não titularSSC 2026: Nora > 0,25–0,5 μg/kg/min
| Dose | Quando iniciar | Observação |
|---|---|---|
| 0,01–0,04 U/min (dose fixa) | Choque séptico com Nora escalando > 0,25–0,5 μg/kg/min | Não titular acima de 0,04 U/min — risco de isquemia. Permite reduzir dose de Nora. |
Diluição padrão: 20 U em 100 mL SF 0,9% = 0,2 U/mL → 0,03 U/min = 9 mL/h
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CuidadosIsquemia mesentérica e digital, hiponatremia, broncoespasmo. Evitar em IC grave (aumenta pós-carga sem efeito inotrópico).
Adrenalina (epinefrina)
α₁ + β₁ + β₂ (dose-dependente)3ª linha no séptico1ª linha na anafilaxia e PCR
| Indicação | Dose | Via |
|---|---|---|
| Anafilaxia | 0,3–0,5 mg (0,01 mg/kg) — repetir 5–15 min | IM lateral da coxa |
| Choque séptico refratário | 0,01–0,5 μg/kg/min em BIC | IV central preferencial |
| PCR | 1 mg em bolus a cada 3–5 min | IV |
| Bradicardia sintomática | 2–10 μg/min | IV em BIC |
Diluição BIC: 4 mg (4 amp de 1 mg) em 250 mL SG 5% = 16 μg/mL
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EfeitosTaquicardia, arritmias, hiperlactatemia (efeito β₂ — não confundir com hipoperfusão), hiperglicemia. Pode mascarar interpretação do lactato como marcador de perfusão.
Fenilefrina (2ª linha)
α₁ puroSem efeito β2ª linha — uso restrito
| Dose | Indicação principal | Limitação |
|---|---|---|
| 0,5–5 μg/kg/min (BIC) · 50–200 μg em bolus | Hipotensão induzida por anestesia, choque com taquicardia significativa quando Nora contraindicada | Reduz DC por bradicardia reflexa — evitar em disfunção ventricular |
Diluição: 10 mg em 250 mL = 40 μg/mL · Bolus 100 μg = 1 mL da diluição 100 μg/mL (10 mg em 100 mL)
Dopamina (em desuso como 1ª linha)
Dose-dependenteSSC: NÃO recomenda como 1ª linhaMais arritmias que Nora
| Faixa | Efeito predominante | Uso |
|---|---|---|
| 1–3 μg/kg/min | Dopaminérgico (renal) | Sem benefício clínico — abandonado |
| 3–10 μg/kg/min | β₁ (inotrópico) | Alternativa em bradicardia sintomática quando atropina/marca-passo indisponível |
| > 10 μg/kg/min | α₁ (vasopressor) | Não preferir — mais arritmogênico que Nora |
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Posição atualSSC 2026 mantém recomendação contra dopamina como 1ª linha em choque séptico. Maior incidência de arritmias e mortalidade vs. Nora. Reservada para casos específicos (bradicardia, indisponibilidade de outros).
Angiotensina II (disponibilidade limitada)
Receptor AT1Choque vasodilatador refratárioPouco disponível no Brasil
| Dose inicial | Titulação | Dose máxima |
|---|---|---|
| 5–20 ng/kg/min | 5 ng/kg/min a cada 5 min | 200 ng/kg/min (3 horas) → 40 ng/kg/min após estabilização |
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IndicaçãoChoque vasodilatador refratário a Nora + vasopressina em altas doses (estudo ATHOS-3). Disponibilidade limitada no SUS — uso quase exclusivo em centros de pesquisa ou setor privado.
Dobutamina
β₁ > β₂ >> α₁1ª escolha inotrópicoAdicionar à Nora se DC baixo
| Dose inicial | Titulação | Dose máxima usual |
|---|---|---|
| 2,5–5 μg/kg/min | 2,5 μg/kg/min a cada 10–15 min | 20 μg/kg/min (acima → mais arritmias sem ganho) |
Diluição padrão: 250 mg (1 amp) em 250 mL SG 5% = 1000 μg/mL
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Cálculo prático (70 kg, 5 μg/kg/min, diluição 1000 μg/mL)Vazão = (5 × 70 × 60) / 1000 = 21 mL/h. Regra mnemônica: μg/kg/min ≈ mL/h × 0,24 (peso 70 kg, diluição padrão).
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EfeitosTaquicardia, arritmias (FA, EV), hipotensão por vasodilatação β₂ — sempre associar a vasopressor se PAM < 65. Tolerância em uso prolongado (> 72 h) por downregulation β.
Milrinona
Inibidor da PDE-3InodilatadorÚtil em IC com hipertensão pulmonar
| Bolus (opcional) | Manutenção | Observação |
|---|---|---|
| 50 μg/kg em 10 min — frequentemente omitido por hipotensão | 0,375–0,75 μg/kg/min | Meia-vida longa (2–4 h) — efeito não desaparece rápido ao desligar |
Diluição: 20 mg em 100 mL SG 5% = 200 μg/mL
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CuidadosHipotensão (vasodilatação arterial e venosa) — quase sempre exige Nora associada. Excreção renal — ajustar em DRC. Evitar em estenose aórtica grave e cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva.
Levosimendana (2ª linha)
Sensibilizador de cálcioDose única 24hAlto custo
| Bolus (opcional) | Manutenção | Duração |
|---|---|---|
| 6–12 μg/kg em 10 min — frequentemente omitido por hipotensão | 0,05–0,2 μg/kg/min | 24 h em infusão única — efeito hemodinâmico dura até 7–9 dias (metabólito ativo) |
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IndicaçãoIC descompensada refratária, particularmente em uso crônico de β-bloqueador (não compete com receptor β). Sem benefício de mortalidade em estudos recentes (LEVO-CTS, CHEETAH) — uso seletivo.
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EfeitosHipotensão, taquicardia, hipocalemia, alargamento de QT. Quase sempre exige vasopressor associado.
Hidrocortisona
CorticoideChoque séptico com vasopressor crescenteSSC 2026: condicional
| Dose | Quando iniciar | Duração |
|---|---|---|
| 200 mg/dia (50 mg IV 6/6h ou infusão contínua 8,3 mg/h) | Choque séptico com necessidade contínua de Nora ≥ 0,25 μg/kg/min por > 4 h após início | 5–7 dias ou até desmame do vasopressor — desmamar gradualmente |
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Posição SSC 2026Recomendação condicional para choque séptico com vasopressor em escalonamento. Reduz tempo de vasopressor; efeito modesto em mortalidade. Hiperglicemia e infecção secundária são os principais riscos.
Azul de metileno (resgate em vasoplegia refratária)
Inibidor da guanilato ciclaseUso de exceção
| Dose bolus | Manutenção (opcional) | Indicação |
|---|---|---|
| 1–2 mg/kg IV em 20–60 min | 0,25–2 mg/kg/h por até 48–72 h | Vasoplegia refratária a Nora + vasopressina ± angiotensina II — pós-CEC, choque séptico de exceção |
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ContraindicaçõesDeficiência de G6PD (hemólise), uso de ISRS/IMAO (síndrome serotoninérgica), gestação, IRC grave. Discutir com referência de UTI antes de usar.
Algoritmo de escalonamento — choque séptico (SSC 2026)
1
Iniciar Noradrenalina
Em qualquer acesso disponível (periférico de bom calibre é aceito enquanto se obtém central). Alvo: PAM ≥ 65 mmHg (60–65 se ≥ 65 anos). Titular a cada 2–5 min.
2
Volume em paralelo se responsivo
Cristaloide balanceado (Ringer lactato preferencial). Reavaliar com PLR + VTI ou VPP a cada bolus. Não administrar volume cego se VCI dilatada ou paciente não-responsivo.
3
Nora > 0,25–0,5 μg/kg/min → adicionar Vasopressina
Dose fixa 0,03 U/min (não titular). Permite reduzir dose de Nora e poupa receptores α. Objetivo: manter PAM com menor escalonamento.
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Considerar Hidrocortisona
200 mg/dia se vasopressor em escalonamento contínuo > 4 h após início. Reduz tempo de vasopressor.
5
Avaliar disfunção ventricular (POCUS / eco)
Se DC baixo (FE reduzida, hipoperfusão persistente apesar de PAM em alvo): adicionar Dobutamina 2,5–5 μg/kg/min. Reavaliar SvcO₂ e Δ pCO₂.
6
Refratário → Adrenalina
Considerar como 3ª droga. Atenção: pode elevar lactato por estímulo β₂ — não confundir com hipoperfusão piorando.
7
Resgate em vasoplegia extrema
Angiotensina II (se disponível) ou Azul de metileno. Avaliar suporte mecânico em centros de referência. Discutir condução com intensivista experiente.
Pontos práticos de segurança
| Tema | Recomendação |
|---|---|
| Acesso periférico | SSC 2026: aceitável para iniciar Nora em veia de bom calibre (antecubital ou maior) por até 6 h. Trocar para CVC assim que possível. Monitorar local a cada 1–2 h. |
| Extravasamento de Nora/adrenalina | Suspender infusão. Aspirar pela cânula se possível. Fentolamina 5–10 mg em 10 mL SF infiltrado SC ao redor (off-label, primeiras 12 h). Calor local seco. |
| Dupla infusão | Drogas vasoativas em via dedicada. Não administrar bolus de outras drogas pela mesma via — risco de bolus inadvertido de vasopressor. |
| Troca de seringa/bag | Risco de hipotensão na troca. Preparar bag novo antes de terminar o atual; trocar com sobreposição de 10–15 s ou usar bomba dupla. |
| Desmame | Reduzir 0,02–0,05 μg/kg/min a cada 15–30 min se PAM estável. Desligar vasopressina por último, com cautela (queda abrupta de PAM possível). |
| Alvo individualizado | SSC 2026: PAM 60–65 mmHg para ≥ 65 anos (estudo 65 trial — não inferior a 65–70 e menor exposição a vasopressor). |
Prescott HC, Antonelli M, Alhazzani W, et al. Surviving Sepsis Campaign: International Guidelines for Management of Sepsis and Septic Shock 2026. Crit Care Med. 2026;54(4):725-812.
Leone M, Myatra SN, Dugar S, et al. Clinical Criteria for the Definition of Refractory Septic Shock: A Joint Delphi Consensus from the Society of Critical Care Medicine (SCCM) and European Society of Intensive Care Medicine (ESICM). Crit Care Med. 2026;54(5):1073-1091.