Pressão Arterial Invasiva (PAI)
Anatomia da onda, amortecimento, PPV e armadilhas de interpretação.
A linha arterial converte a pressão pulsátil da artéria em sinal elétrico contínuo. A qualidade dessa leitura depende do sistema de transdução — entender a onda e seus artefatos é tão importante quanto ter o número na tela.
Anatomia da onda arterial
Abertura da válvula aórtica → ejeção rápida. Inclinação reflete contratilidade e resistência vascular.
2 — Pico sistólico (PAS)
Pressão máxima. Em artérias periféricas (radial vs. femoral), o pico é amplificado — PAS radial pode ser 10–20 mmHg maior que aórtica.
3 — Descida sistólica
Fim da ejeção, queda progressiva antes do fechamento aórtico.
Fechamento da válvula aórtica — separa sístole de diástole. Em choque séptico: notch precoce e mal definido. Em estenose aórtica: tardio e atenuado.
5 — Curva diastólica
Pressão cai até o próximo ciclo. Quanto mais rígida a aorta (idoso, HAS), mais abrupta.
6 — Nadir diastólico (PAD)
Pressão mínima. Reflete RVS e tempo de diástole.
Configuração e zeragem do transdutor
- 1Nível flebostático: Posicionar o transdutor no 4° espaço intercostal, linha axilar média — nível do átrio direito. Cada 10 cm de diferença geram ±7,5 mmHg de erro sistemático.
- 2Zeragem: Abrir a torneira para o ar (não para o paciente), pressionar "zero" no monitor. Deve marcar 0 mmHg. Repetir ao mudar posição do paciente ou do transdutor.
- 3Fast-flush test: Puxar e soltar a válvula de flush rápido. Onda quadrada + 1–2 oscilações que retornam rapidamente à linha de base = sistema criticamente amortecido (ideal).
Problemas de amortecimento
Onda arredondada, sem notch dicrótico, subida lenta.
Erro: PAS falsamente baixa, PAD falsamente alta.
Causas: bolha de ar, dobra do cateter, coágulo na ponta, extensão muito longa.
Conduta: flush suave, aspirar e descartar, trocar o sistema.
Onda espiculada, oscilações extras após a notch, subida íngreme.
Erro: PAS falsamente alta, PAD falsamente baixa.
Causas: extensão curta, sistema muito rígido.
Conduta: adicionar filtro de amortecimento. Usar PAM nessa situação.
Leitura avançada — o que a onda diz além do número
| Sinal na onda | Interpretação clínica |
|---|---|
| Subida sistólica muito lenta (pulsus tardus) | Estenose aórtica grave — obstrução de via de saída do VE |
| Amplitude pequena (pulsus parvus) | Baixo débito cardíaco — choque cardiogênico, tamponamento |
| Variação respiratória da amplitude > 13% (PPV) | Responsividade a fluidos em VM controlada |
| Pulso alternante (pulsus alternans) | Alternância de picos altos e baixos → ICC grave, disfunção severa de VE |
| Pulso paradoxal > 10 mmHg | Queda de PAS na inspiração → tamponamento, asma grave, auto-PEEP |
| Notch dicrótico precoce e proeminente | Baixa RVS — vasodilatação, sepse distributiva |
| Onda em "pico e cúpula" (spike and dome) | Cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva (CMHO) |
PPV — variação de pressão de pulso
- Sens. ~80%, esp. ~85%
- Inválido em: arritmias, respiração espontânea, PEEP alta, VC < 8 mL/kg, HP direita, tórax aberto
Discordância entre PAI e esfigmomanômetro
Vasoconstricção periférica intensa (noradrenalina em altas doses). A PAI radial amplifica o pico sistólico. PAM continua confiável.
Sugere problema técnico: coágulo, posição incorreta, overdamping. Fazer flush, verificar posição. Se paciente bem clinicamente → confiar no cuff e investigar o cateter.
O que não fazer
- Transdutor fora do nível flebostático → erro sistemático (cada 10 cm = ±7,5 mmHg)
- Não zerear após mudar posição do paciente
- Confiar na PAS em overdamping → vasopressor desnecessário
- Usar linha arterial para infundir drogas → isquemia irreversível
- Não identificar pulsus paradoxal → tamponamento não diagnosticado